Prazer, meu nome é turista

Beyt Al Chai cama
{Nossa cama no hotel Beyt Al Chai, em Stone Town}

No post passado eu disse que era muito natural que um membro da tribo Massai, do Quênia, trabalhasse num hotel em Zanzibar, na Tanzânia. Sabe por quê?

Veja só as recomendações que um turista encontra por todo lado quando chega em Stone Town – aqui, retiradas do mapinha oficial de Zanzibar que você compra nas lojas de suvenir:

– Não ande por Stone Town nem outras cidades e vilas em Zanzibar vestindo biquínis e minissaias. Pede-se a todos os turistas o uso de roupas recatadas, em respeito à fé islâmica da maioria dos habitantes da ilha. Mulheres devem cobrir os ombros e vestir calças ou saias que alcancem abaixo do joelho. Homens não devem andar sem camisa.

– Não faça topless nas praias de Zanzibar. Biquínis e roupas de banho são aceitáveis (sic) em praias turísticas, mas não se há pescadores ou catadores de algas por perto.

– Lembre-se que durante o mês de Ramadã, enquanto os muçulmanos estão jejuando, é considerado o auge da falta de educação comer ou beber na rua ou em locais públicos.

– Lembre-se de pedir permissão antes de tirar fotografias de pessoas e casas particulares.

– Não se esqueça de que Zanzibar é uma sociedade islâmica. Apesar de o álcool estar livremente disponível nas ilhas, o “comportamento embriagado” não é visto com tolerância e é considerado ofensivo pela maioria das pessoas.

Old Fort
{O Omani Fort, de 1701, em Stone Town: símbolo da expulsão dos portugueses pelas tropas de Oman}

E o que isso tem a ver com os massais?

Bom, depois de ler essas e outras recomendações, dia após dia, em tantos lugares, e ver vários turistas as ignorando, especialmente quanto às restrições a regatinhas e minissaias, é inevitável: uma hora você se pega pensando: “catzo, não agüento mais tomar pito desses folhetinhos. Parece que a gente é um estorvo aqui na ilha”. 

E de certa forma, é mesmo. Trazemos o dinheiro do turismo, que o povo, bastante pobre, precisa. Mas também incomodamos com nossos costumes “infiéis”, nosso espalhafato, nossos óculos escuros de astro de TV. (Eu aguentei firme o calor e mantive ombros e coxas cobertas o tempo todo). E, pior, com nossas câmeras de lentes compridas batendo flashes na cara deles.

House of Wonders
{The House of Wonders, de 1883: parte do conjunto arquitetônico de Stone Town, Patrimônio da Humanidade}

E olha que curioso: depois das nossas estadias nas praias de Matemwe e Mnemba, percebemos que não tivemos contato com praticamente nenhum funcionário de hotel muçulmano.

Ora, se 99% dessa ilha é da turma de Alá, como é que todos os camereiros, garçons, cozinheiros dos hotéis são católicos? E, mais intrigante, eles também eram moradores das comunidades daquelas praias.

A verdade nós descobrimos conversando com nosso motorista do traslado de volta do Mnemba a Stone Town: a grande maioria dos locais, muçulmanos, da ilha se recusa a trabalhar com os turistas, nos hotéis.

Basicamente porque nós estamos sempre seminus, bebemos álcool e comemos carne de porco regularmente (nham!).

Beyt al Chai estar
{Sala de estar do Beyt Al Chai, onde mantinhamos nosso comportamento “sóbrio” tomando – adivinhe? – chai}

Como resolver a questão, se a ilha vive basicamente do turismo? Trazendo funcionários da mainland, como eles chamam a porção continental da Tanzânia. Ou, por que não, do Quênia? Daí os massais serem relativamente comuns como funcionários na hotelaria de Stone Town. Como esse movimento migratório tem sido sistemático nos últimos anos, já existe uma boa quantidade de tanzanianos católicos integrados nas comunidades de praia.

E sabe o quê? Essa foi a primeira viagem que eu fiz em que minha condição de turista era completamente indisfarçável. Era Ramadã, a homarada tava toda na rua, meio na preguiça, em jejum, e simplesmente todos ficavam nos filmando, pra onde quer que fôssemos.

Eu sentia tanto o climão no ar que não fui capaz nem de fazer menção a fotografar qualquer pessoa na rua. Sentia como se fazer isso fosse um ato obsceno. A não ser que eu me tornasse minimamente íntima de alguma pessoa e pudesse pedir respeitosamente autorização para a foto.

Stone Town1
{Já cliques das lindas portas da cidade, muito típicas, dava pra fazer sem galho}.

Como eu gostaria de ter fotografado alguma das tantas mulheres de burca que vi pelas ruas, naquele calor de 38 graus. Como todas andavam olhando pro chão, a aproximação ficava difícil, e era impensável eu levantar a câmera de supetão e clicar.

É como se um gesto desses fosse reforçar a ideia de que nós, turistas, em nosso estado natural, não temos respeito pela cultura local. E por isso precisamos de tantos códigos de conduta escritos em todos os lugares.

Levantar minha câmera para uma daquelas mulheres era como um símbolo do turismo insustentável. Preferi registrar aqueles olhos pretos escondidos sob o véu preto só na minha memória.

Stone Town porto
{O porto e seus velhos canhões: hoje não chegam mais inimigos por essas águas, só turistas vindos com a balsa de Dar-es-Salam}

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6 Respostas to “Prazer, meu nome é turista”

  1. Arnaldo - FATOS & FOTOS de Viagens Says:

    CLAUDIA, é um prazer vir aqui e ler essa matéria, assim como as demais. Eu e Emília estamos programando uma viagem ao Quênia, Tanzânia e Zanzibar e, se não fosse nossa próxima, em maio, à Índia, este seria o próximo destino.

    Ainda não pude ler tão atentamente como queria, desde o primeiro capítulo, mas numa “passada de olhos” verifio a qualidade e a personalidade do texto, o conjunto de boas informações e o modo atraente de escrever.

    PRECISO encontrar mais tempo para trabalhar, escrever, fotografar, viajar e ler os excelentes blogs de viagens da blogosfera, entre eles, sem dúvidas, o seu.

    Parabéns. Apareça no F&F, será um prazer.

    E grato por me seguir no Twitter.

  2. Claudia Carmello Says:

    Olá, Arnaldo, seja sempre bem-vindo! Obrigada por todas as considerações, adoro ouvir as opiniões dos colegas blogueiros. Sempre passo nos Fatos e Fotos, não tenha dúvidas. Com aquelas lindas fotos e informações muito completas. Grande abraço,

  3. eduluz Says:

    Muito legal não tirar as fotos!
    Mas eu acho que tiraria!! Escondidinho, mas tiraria!! rs
    Abs peruanos.

  4. Ernesto Says:

    Claudia

    Muito legal a sua descricao de viagem!

    Truquinhos para fotos legais:

    1- Um bom zoom, e uma boa distancia deixam que a pessoa nao perceba que esta sendo fotografada .

    2- A minha esposa finge que esta me fotografando,e sutilmente tira algo um pouco mais a esquerda…

  5. Claudia Carmello Says:

    Ernesto: essa de fingir que fotografa o marido e apontar mais pro lado é melhor. Mas com essa da tele já me dei mal. Tem gente que caça teleobjetvas pela rua, tenho certeza! O cara vê de longe sua câmera e fica te monitorando, como se você estivesse com uma arma na mão… Coisa de louco.

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