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Parque Nacional Tayrona: um dia e a vontade de passar a noite

segunda-feira, fevereiro 1, 2010


{Arrecifes: que vontade de ficar aqui}

No último dia do ano, 31 de dezembro, também último dia baseado em Taganga, resolvemos ir ao lado leste e mais interessante do Parque Tayrona.

A logística era tranquila. Acertamos tudo no albergue dos nossos amigos, o simpático Divanga. Uma van nos pegaria no hotel e  levaria até a entrada do parque, a uma hora de estrada. De lá encararíamos uma trilha de 45 minutos até Arrecifes,  a praia mais ban-ban-ban. Ida e volta de van custava 30 mil pesos por pessoa (uns 30 reais). E a taxa de preservação do parque, mais 34 mil pesos (para colombianos era bem mais barato, uns 12 mil, acho).

Da portaria em diante, felizes em encontrar a floresta verdinha depois de tanta vegetação árida, íamos a pé. Eu fui esperando uma trilha fechadona no meio do mato. Fui de havaianas mas com o tênis na mochila, para garantir. Ainda tinha lido no meu Lonely Planet que rolava muita cobra no parque, e que se você fosse picado, não era pra deixar ninguém te levar a Santa Marta — muito longe, enquanto a própria administração do parque tinha soro antiofídico, embora pouca gente saiba. Por via das dúvidas, nem comentei o fato com o povo, pra não ter desistência. 😉

Chegando lá, a trilha era um sossego. Quase uma estrada de terra aberta no meio da floresta. Bom, de terra é bondade minha, na verdade era uma estrada de lama e estrume. Como o jeito mais barato de chegar nas praias daquelas bandas era pela trilha (de barco, se a gente viesse de Taganga, daria uns 100 reais pra cada um), jumentos e cavalos eram usados como carregadores de tudo – de água para o boteco da praia às malas da galera que ia se hospedar dentro do parque. E também do povo que tinha preguiça de fazer a trilha.


{Taí o motivo de tanto cocô no meio da lama… argh!}

O trajeto era leve, mas o cheiro de estrume era um horror. Para ajudar a aguentar firme, plaquinhas no meio do caminho atestavam sua evolução:

A chegada era triunfal. Um imenso gramado com coqueiros altíssimos, um restaurante bonitinho, e uma praia extensa, mas de paisagem nada monótona: um mar bravíssimo, areia fofa, uns pedrões no meio dela, ilhotas no mar, uma lagoa, coqueirais. Demais.

O chato era não poder nadar. O mar era tão bravo – o nosso motorista da van já tinha advertido – que 200 pessoas já tinha se afogado lá. Quando tentamos entrar só até a coxa, para dar uma refrescada do calor de matar, um guarda-parque veio apitando e nos botando pra fora d’água. Bem que a plaquinha tinha avisado:

  

Não só a paisagem era linda, como o clima da praia era delicioso. Pouca gente, uns burricos passando com as bagagens, um camping simpático, dava muita vontade de ficar ali. Foi inevitável a ponta de arrependimento por ter escolhido Taganga como base. Mesmo que ali fosse isoladaço, com certeza sem balada de Reveillon e sem opção de restaurante de noite, o lugar era um paraíso.

O impedimento de mergulhar nem era grave. Caminhando para o lado esquerdo, logo se chegava a uma  praiota, chamada Piscinas, onde dava pra cair na água. É claro que meu marido já foi achando que dava pra mergulhar logo na lagoa de Arrecifes, que parecia tão calminha.

E já ia caminhando para a lagoa, ao lado dos burricos. Só deu meia volta por causa da minha insistência. Não era muito estranho não ter nem uma criatura humana ali dentro, mesmo com aquele calorão? Devia ter algum motivo muito bom pra isso, não? 

Tinha mesmo. Caymanes. (Jacarés. Rá).

Dali fomos andando pra Piscinas. Azar, naquele dia ela também estava proibida para banho. O vento e o mar estavam impossíveis.

Comemos uma arepa sensacional numa barraquinha entre uma praia e outra.

Mais 30 minutos de caminhada por uma trilhinha quase à beira mar e chegamos em Cabo San Juan del Guia, a base mais movimentada para quem vai ao lado leste de Tayrona. Há alguns restaurantes simples, cabanas e campings.

A praia era linda e boa pra mergulhar. Um pouco mais cheia que as outras, mas ótima.

Ótima pra perder a hora também. Na empolgação, acabamos calculando mal o tempo da trilha de volta. Tínhamos que estar na entrada do parque para pegar a van às 15h. Cedo, porque ainda queríamos dar uma dormida aquele dia pra estar novos pra virada. Não nos demos conta de que a volta iria demorar quase 1h30, saindo de Cabo. Ainda paramos no meio do caminho pra fotografar os macaquinhos tití.


{A foto da placa saiu melhor que a do bicho}

Conclusão: fizemos a trilha de volta quase correndo, desviando dos burricos e cavalos que atravancavam o caminho, e mesmo assim chegamos uns 40 minutos atrasados na van. Ainda bem que aqui não era a Suíça. O motorista não só não ficou puto com a gente, como ainda pediu aos guardas da portaria que avisassem de seu atraso para a  pobre menina que ele tinha que buscar ali dali a uma hora. (Duvido que tenham avisado, convenhamos).

Viva a Colômbia, viva o último dia do ano. 2010 estava chegando, e a gente com o pé direito a postos.

***

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Playa Brava: o paraíso
Taganga: o que essa vila É
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Playa Brava: o paraíso a um barco e uma trilha de distância

quinta-feira, janeiro 21, 2010


{A praia dos sonhos existe. Mas dá um trabalhinho chegar lá}

Descobertas as limitações de Taganga, ao fim do primeiro dia de viagem fomos a uma das operadoras de mergulho da vila, na rua da praia, para tentar entender melhor o que era o vizinho Parque Nacional Tayrona.

Olhando um imenso mapa das praias do parque na parede da loja, fomos indagando o atendente. Queríamos:
a) uma praia sem muvuca
b) bonita
c) de areia
d) a pouco tempo de barco de Taganga

Na conversa, fomos percebendo que o lado oeste (onde estávamos) e o lado leste do parque eram diferentes. O que todo mundo chamava de Tayrona era o lado leste, cercado de floresta e com praias de areia. Nós estávamos no setor árido, com vegetação de caatinga à beira mar, e com uma maioria de praias de areia dura com pedras.


{Mapa de Tayrona pintado no vidro de uma van de passeios}

A praia mais bonita do nosso lado seria Bahía Concha, com areia, a meia hora de barco de Taganga, mas como tinha estrada até lá, estaria lotada.  

Mas não tem outra praia linda perto?, perguntamos. Tem sim, Playa Brava.  Mais perto que Concha, só que é preciso pegar 20 minutos de barco até a enseada de Granate, depois mais 20 minutos de trilha até Brava. É totalmente deserta.  Deserta?

Mais que depressa marcamos o barco para o dia seguinte.

Granate tinha três enseadas: era preciso desembarcar na última e fazer a trilha. Chegando lá, havia só uma casinha de pescadores, uns cachorros, alguns locais. E um morro bem alto: a gente teria que subir tudo, descer tudo do outro lado pra chegar à Brava.

Três garotos vieram se oferecer para nos guiar pela trilha. No começo eu fiquei meio injuriada: pra quê pagar os meninos se disseram que dava pra fazer a trilha sozinho? Fora que dois estavam com paus e um com um facão gigante na mão. E a gente em dois casais.


{Eis o morro que tínhamos que subir e descer pra chegar à Brava}

Bom, seguimos os três, meio alertas. E agora digo: santos moleques! A trilha de subida do morro não era muito óbvia, e era bem íngreme – não ia ser nada legal se perder e ficar subindo e descendo pra se achar. Chegando no topo…

Que vista! E um vendaval insano, de descolar as bochechas do rosto (e de te fazer agradecer às aulas de ioga pelo equilíbrio conquistado).

A trilha pra descer era muito pior. Mais íngreme, o que fazia a gente se abaixar pra caminhar, às vezes. E chegando lá em baixo, uma restinga cheia de cactos e árvores de espinhos que se entrelaçavam – agora sim eu entendia o facão do garoto. A trilha era meio casca mas no total durava só 20 minutos mesmo.

Chegando à areia, tchan tchan tchan tchan… Ninguém, meus amigos. Nem uma alma viva. Nem uma construção. Uma areia fofa no começo, batida perto do mar, e um mar bravo. Como é bonito mar com ondas, não?

 

Do lado esquerdo tinha uma micro falésia que salvou a nossa pele: garantia a sombrinha.

Achar a Brava foi um alívio absoluto. Então tinha valido à pena vir até a Colômbia pegar praia. Então não estávamos condenados a um banho de mar com 345 vizinhos, nem à farofa na areia. Uhu!

(Bem, tivemos que nós mesmos providenciar a farofa, comprando um isoporzinho com cerveja, água e bolachas no mercadinho antes de ir. É o único jeito de sobreviver, porque não tem nada na Brava).

Horas mais tarde, umas 15h30, nossos guias vieram de novo pra ajudar na trilha. Porque 16h a lancha estava de volta para nos pegar. (Graças ao fuso, 3 horas a menos que Sampa – eles não têm horário de verão – , a gente acordava cedo na Colômbia, pelas 8 da manhã).

Foi um dia de sucesso. Tanto que voltamos no dia seguinte à Brava, com mais dois casais. E passamos mais um dia com a praia inteira só pra nós.


{A baía de Granate na trilha de volta}

Foi um dia também para reforçar a velha máxima: em alta temporada, praia boa é só a difícil de chegar.

***

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Taganga, Colômbia: o que essa vila é

quarta-feira, janeiro 20, 2010


{Uma só vila, duas formas de encará-la}

Detonei a pobre da Taganga no post passado. Mas foi só uma questão de respeito à ordem cronológica da viagem. Aquilo lá que escrevi no post passado foi o que dominou meus pensamentos na primeira noite e  no primeiro dia por lá.

Ao longo da viagem, fomos percebendo que era tudo uma questão de enquadramento: Taganga não é um destino. Nosso erro foi pensar assim. Taganga é uma base.

Base para conhecer as praias lindas do Parque Nacional Natural Tayrona, além de base para fazer o trekking de seis dias (ida e volta) até a Ciudad Perdida (a trilha inca e a Machu Picchu dos colombianos), no meio da Sierra Nevada (essa serra que termina na praia e que dá pra ver nas fotos de Taganga que postei).


{Trilha, trilha, sai preguiça}

Eu saí do Brasil pensando em passar dias sem fazer nada, em sair da pousada e cair no mar sem escalas, depois passar o dia estirada na canga. Chegando lá, esse esquema não rolava.

E, quando você percebe que vai ter que ter um pouco mais de trabalho pra achar uma praia do seu número, é preciso tomar uma decisão. Você pode ficar reclamando. Ou pode atropelar a preguiça e ir à luta (hahaha).

Foi o que fizemos, e valeu muito a pena. A viagem foi linda. Achamos praias incríveis.

Mas voltando à mal falada vilinha…. Era uma base. E como tal, Taganga acabou nos agradando bem mais.

Depois de um dia inteiro em praias desertas ou com mar bravíssimo, depois de muito caminhar, descer ladeira, subir ladeira, segurar o chapéu para o vento não levar, entrar em barco, descer de barco, era bem bom voltar pra Taganga e encontrar alguns confortos. Do tipo:

1- Uma cerveja gelada. Bem gelada.

2- As barraquinhas de suco do calçadão.


{Melhor que as casas de suco do Rio}

Era só escolher a fruta, com água ou com leite, com ou sem açúcar, e pirar. O suco de lulo ficou sendo meu preferido disparado. Eu sonhava com aquele suco de lulo, que vem a ser essa fruta aqui:


{Lulo? Muito prazer, Claudia}

3- O restaurantezinho perfeito para a almojanta.

4- Uma pousada bacana de frente para o mar e com caminhas na areia: pra dar aquele bodinho de fim de dia,  largadão, sob a luz dourada no entardecer.


{Para um soninho depois que a farofa se foi}

5- Um píer cheio de barcos que te levam a qualquer lugar que você inventar de ir amanhã cedo. Ou amanhã tarde. (E se você não é de barco, também tem táxi, ônibus, vanzinhas, o que for).


{Só não esqueça de pechinchar com o barqueiro}

6- Uma sequência de estaderos (barracas de praia) na Playa Grande, vizinha, onde o cardápio é uma bandeja com peixes frescos pra você escolher…


{É pargo, é robalo, é pargo vermelho…}

…E onde se come um pargo ao molho de coco levííííssimo


{Dava pra comer até dois}

7- Uma balada decente de Reveillon

8- E, sim, os gringos mochileiros, a maioria europeu, que estavam mesmo em Taganga (embora, no Reveillon, não fossem maioria, como diziam os guias). Pelo toque cosmopolita que eles dão ao lugar.

***

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quinta-feira, janeiro 14, 2010


{A aconchegante baía de Taganga)

Chegamos em Taganga meio ressabiados. Eu nunca tinha ouvido falar desse lugar antes de os amigos que inventaram essa viagem resolverem mudar o plano inicial de passar a virada do ano em Cartagena pra passar em Taganga.

O que me disseram foi: “Cartagena é grande e muito turística, vamos passar o dia 31 numa praia menorzinha, mais alternativa: Taganga”. Do argumento eu gostei. Mas será mesmo que essa vila era legal? Resolvi pesquisar melhor, mesmo sabendo que, em viagens com grupo de amigos, as decisões acabam saindo um pouco do seu controle.

O que consegui apurar naquela correria de final de ano, com uma amiga jornalista que tinha acabado de ir, foi isso: é uma praia descolada, 3 horas ao norte de Cartagena, pertencente ao município de Santa Marta. Fica a meia hora do aeroporto de Santa Marta, é uma vila de pescadores e um centro de mergulho às portas do Parque Nacional Tayrona, cheio de praias desertas.


{A porção da orla ocupada por barquinhos}

Depois, o Lonely Planet dizia que era uma praia em baía pitoresca, cheia de europeus mochileiros, de atmosfera relaxada e reputação notívaga. 

Procuramos hotel  e na prática só achamos um com cara de confiável: o Ballena Azul. Quase todos os outros eram albergues em casarões. Deve ser bem roots mesmo, imaginamos. E nossa imaginação brasileira e otimista imaginou um roots tipo Caraíva – ruas de areia, sombras de amendoeiras, um rústico com charme. Só que com albergues ao invés de pousadas.

Bom, não era bem isso, não. (Evidente que um lugar a meia hora de táxi de um aeroporto não seria como Caraíva. Mas, enfim, a gente é meio Pollyanna quando está precisando de férias desesperadamente).

Chegamos à noite, direto no hotel. O Ballena Azul era tudo o que prometia: uma pousada com certo conforto (ar-condicionado, frigobar, TV a cabo, telefone no quarto).


{Quarto fofo e equipado: só faltou chuveiro quente}

Tinha áreas comuns até charmosas.


{O pátio interno com jacuzzi do hotel}

Era de frente paro o mar, com cadeiras e caminhas na areia e serviço de praia.


{O lobby com a praia na porta}

O problema é que era na esquina da principal rua de acesso à vila com o início do calçadão de Taganga.

Calçadão? Pois é, esse foi o primeiro baque. Talvez Taganga tenha sido como Caraíva há 20 anos. Mas hoje ela tem um projeto urbano esquizofrênico. É uma praiota numa baía fechada, com uma rua principal cortada por umas dez transversais. Só que as ruas foram cimentadas e há um calçadão com mureta, bancos, quiosques, como se aquilo fosse um grande balneário. 

Em resumo: Taganga tem  tamanho para ser um pequeno vilarejo charmoso, como Caraíva, mas projetou uma orla a la Guarujá. Bizarro. 

O primeiro passeio noturno foi broxante.  A avenida da praia era ocupada por alguns restaurantinhos e bares legais, mas outros meio degradados,  e também  agências de turismo e mercadinhos sujinhos – um deles tinha uma balada no segundo andar, toda aberta, com meia dúzia de gatos pingados, e mesmo assim com uma insuportável música eletrônica altíssima que se ouvia em toda a orla. 


{O que esse calçadão está fazendo aqui?}

De manhã, pior: o tal calçadão estava em obras. E todos os quiosques ficavam fechados (pudera, cadê a demanda  pra tanto quiosque?). Vans e táxis chegavam do centro de Santa Marta (tipo uma Guarapari da Colômbia) e deixavam direto na frente do nosso hotel a galera que veio passar o dia na única área habitável da orla de Taganga, onde não havia calçadão (a frente do nosso hotel). O resto da praia era portinho dos barcos que faziam passeios.

Ou seja: passar o dia em Taganga, no way.

Mais do que  imediatamente fomos atrás da trilha de 20 minutos entre Taganga e a Playa Grande (recomendada pelo Lonely Planet). Quem era preguiçoso podia ir de barco, ao preço de 6000 pesos colombianos (uns 6 reais por pessoa).

Mas a Grande era pior ainda. Uma farofa desgraçada, banana boat, barracas de camping na areia e um assédio insuportável de vendedores ambulantes, garçons de restaurantes e donos de cadeiras  pra alugar. Será que era culpa do Reveillon? Será que o problema era a alta temporada?


{Uma dessas barracas-restaurante estava em construção: vai ter dois andares}

No desespero, vimos que no morro do fim da praia tinha outra trilha. Fomos andando e achamos algumas enseadinhas minísculas e lindas, vazias. O problema era que não eram de areia, mas de pedra, ruim de deitar com as cangas fininhas que a gente tinha. E ruim de entrar no mar porque o pé doía com as pedrinhas. A maioira delas ainda era base de pesca – os pescadores abrigados em barracos de palha não deixavam ninguém nadar, para não estragar as armadilhas nem enroscar nas redes.

Meu Deus! O que nós vamos fazer nos outros dias? Foi o pensamento em coro. O jeito seria pegar lancha todo dia para as tais praias desertas do Parque Tayrona – como a Playa Grande, formalmente, já era dentro do Parque, começamos a temer a noção de desertas que nos passaram.


{Enseadinha sem nome: vazia, mas dos pescadores}

O próximo capítulo eu conto amanhã.

(Mas já adianto que a solução do imbroglio  foi reenquadrar o status de Taganga na nossa cabeça: não é destino, é base).  

***

Mais da série Colômbia:

Taganga: o que essa vila É
Colômbia: a la orden (resumo da viagem)

Colômbia? A la orden

terça-feira, janeiro 12, 2010


{Toscana? Provence? Nada: galeria na muralha de Cartagena}

Chicos, volvi!

E para esquentar os motores do blog, lá vai um foto-post-teaser dos posts de Colômbia que virão.

Tudo começou com um amigo, o Maurício (o que contou esse causo de viagem sensacional vivido num veleiro pelo Caribe), dizendo que ia passar o reveillon na Colômbia com uma galera. E convidando: vamo aê? Opa, bámos, como no?

Primeiro a virada era pra ser em Cartagena. Depois mudaram pra Taganga, uma vila de pescadores 4 horas ao norte, ainda no Mar do Caribe, à beira do Parque Nacional Tayrona. 

Chegamos em Taganga e a prainha em frente ao nosso hotel era assim:


{Taganga às 8h da manhã. Lindinha}

Simpática, né? Pena que isso era às 8h da manhã, e dali a umas 4 horas a areia ia ficar tão muvucada quanto a da vizinha, a Playa Grande, a que o meu Lonely Planet Colombia dizia ser a melhor praia para passar o dia:


{Playa Grande: cruzes, me tira daqui!}

Então, no dia seguinte, fomos atrás da praia deserta dos nossos sonhos. E não é que a 10 minutos de barco e mais 20 minutos de trilha nós chegamos a:

{Playa Brava: quando apontei no topo da trilha, “me” veio um flash da Praia do Leão}

Agoooora, sim. Praia desertaça, só nós 8, em pleno 29 de dezembro. Por via das dúvidas, dia 30 voltamos lá, e passamos o dia como donos da praia de novo.

Como deu pra ver na foto lá da Playa Grande, os morros ao redor das enseadas não são desmatados nem queimados, não: são áridos mesmo. Tem até cacto à beira-mar:

Perdão, cacto, não. MUITOS cactos, na trilha toda.


{A insólita trilha entre os cactos de Granate até a Playa Brava, na ponta sul do Parque Tayrona}

Tudo muito lindo, tudo muito exótico. Mas depois de dois dias começou a me dar um canseira daquela aridez, uma vontade de pegar uma prainha assim, mais bahiana, saca? Um coqueirinho, uma lagoinha…

E então, no dia 31 de dezembro, lá fomos nós procurar no lado norte de Tayrona um recanto para viver o último dia de 2009 com mais, digamos, exuberância.

E não é que achamos, minha gente?


{Úia! Praia Arrecifes, em Tayrona: lagoa, coqueiral e muita areia}

Para nosso delírio, o norte do parque era radicalmente diferente do sul. Todas as enseadas eram de areia, nada de secura nem de cactos, tudo de  coqueiros e até lagoinhas.

Que vontade de ficar mais. O camping ali de Arrecifes despertou meus ímpetos pé-sujos loucamente. 

Mas eis que no dia primeiro do ano de 2010, acordamos com outras ganas (e com uma ressaca dos infernos, evidente).

Cartagena, aí íamos nós.

E a recepção não poderia ter sido melhor.

Eram monumentos históricos:


{Iglesia de San Pedro: em frente fica um restaurante disputadésimo}

Uma muralha charmosíssima, como na foto do topo do post.

Um casario colorido:


{Calle San Juan de Dios, Cartagena}

Roupas coloridas:


{Baila, baila na Plaza de los Coches}

Comidas coloridas:


{Ceviche, nham!}

Olha, eu vou falar. Tudo o que nós quisemos da Colômbia nesse reveillon ela nos deu. É como diziam todos os vendedores de tudo que você possa imaginar pelas ruas: “a la orden”, “a la orden” (às ordens, em português).

Mas eu vou retribuir, não tenha dúvida. Da próxima vez que alguém me convidar para ir pra lá eu vou dizer: Colombia, estoy aqui, a la orden!


{Último dia da viagem: olha a pinta de colombiana da pessoa}

Arunachal Pradesh: que raio de lugar é esse?

terça-feira, dezembro 15, 2009


{Ponte de bambu feita pelos habilidosos Adi no Rio Siang. Foto da Wanderers}

E o destino de hoje é: a floresta de Arunachal Pradesh, no extremo nordeste da Índia, e suas tribos Adi

Há quem chegue lá pra se embrenhar na selva, aos pés do Himalaya. Só de orquídeas, ela tem 500 espécies. De bambus, mais de 30 tipos. Faisões, são 10; veados, quase isso. Há ainda elefantes, tigres e ursos negros.

A floresta ali só é devassada com facilidade pelos rios caudalosos. E pontuada por pequenas vilas onde vivem quase 100 sub-etnias diferentes, divididas em 26 grupos tribais, falando 50 dialetos próprios. Isso tudo em um território pouco menor que o estado de Santa Catarina.

Arunachal Pradesh é isolado até no mapa da Índia. Se pensarmos o país como um triângulo apontando para o sul, o estado é um rabicho de terra no extremo nordeste, depois que começa e termina o território de Bangladesh, e bloqueado entre Butão, Myanmar e China (a China disputa com a Índia o  território).

Arunachal foi também o último estado indiano a autorizar a entrada de estrangeiros – hoje, a permissão de permanência é de 10 dias e viajante independente não entra. É preciso estar num grupo de pelo menos quatro pessoas (para ser bem sincera, eu não me arriscaria por lá sozinha, não). 


{Mulher Adi em sua casa de bambu. Foto da Getty}

Mas 10 dias é um tempo  mais do que bom  para se embrenhar pela selva, caminhando de dia, acampando de noite, e passando pelas vilas Adi, o grupo tribal mais notável dali, que vive às margens do Rio Siang.

Os Adi (“homem das colinas”) são peritos na manipulação do bambu que faz suas casas e pontes. Conta-se 100 mil deles na região. Plantam arroz, bebem um fermentado alcoólico de painço (um grão), comem pássaros, besouros vivos e, preferencialmente, ratos. Criam uma espécie de touro chamado mithum, só abatido e devorado em cerimônias religiosas.

{A dança das mulheres da vila. Foto da BBC}

São conhecidos pela organização política altamente democrática. Em cada tribo há um xamã, mas as decisões são tomadas em assembléias onde todos dão suas opiniões. Só não há como contrariar os deuses.

Os Adi são animistas, e acreditam que os elementos da natureza são espíritos. Quando estão enfurecidos, eles mandam doenças sobrenaturais e má-sorte à tribo. Por isso, todas as festas implicam em sacrifícios para aplacar essa fúria.

O principal deus é o Sol-Lua, o guardião das leis morais. Ele prega que haja dormitórios separados para garotos e garotas, durante a adolescência. Mas não condena a poligamia, largamente praticada entre os adultos.


{Famosos xales Adi. Foto da BBC}

Onde raios fica isso? 26º10’  N, 94º46’  L

Rá! No vale do Rio Siang, em meio à selva de Arunachal Pradesh, aos pés do Himalaya indiano.

E como eu chego lá? De Calcultá, são três horas de vôo até Dibrugarh, no estado de Assam, e mais três horas de balsa sobre o rio Brahmaputra até Pasighat, um dos portais de entrada de Aranuchal Pradesh. De resto, é explorar a área a pé.

Alguém me leva? A inglesa High and Wild  ou a indiana The Wanderers

***

Conheça outros lugares remotos da seção “Que Raio de Lugar é Esse?”:

Lesoto, África
Serra Fina, Brasil
Montanhas Hindu Kush, Paquistão

Isla del Coco, Costa Rica 

Você sabe que está em Zanzibar quando…

sexta-feira, outubro 30, 2009

IMG_1512
{O kikoy, a tanzanita, o saquinho de spiced tea, a cumbuca de madeira e as favas de baunilha: very very zanzibari}

1-Todas as criancinhas de Stone Town prestam muita atenção em você e, quando chegam perto, te olham com aquele sorrisinho maroto e dizem: jambo! (oi, em swahili). Na sequência, ainda podem te gritar “mzungu!” (gringo).

2- Não se vêem homens de bermuda e quase nenhuma mulher sem véu na cabeça.

3-Você encontra suco natural de frutas em qualquer esquina. Parece perfeito. O difícil é achar suco de UMA só fruta. A moda local é o tal suco ”mixed” (normalmente de maracujá com abacaxi mais manga). E se você pergunta “mas quais são as frutas desse suco? Não dá pra fazer só de uma delas?”, eles te respondem “they are TROPICAL fruits, you’ll like it!” (Como quem diz: pra gringo, sendo fruta de verdade já é o máximo).

4- Você ouve a expressão hakuna matata (no problem) pelo menos uma vez a cada três frases da conversa com um beachboy (carinha que te aborda na rua oferecendo tours guiados, se você diz não, oferece táxi, se diz não, camisetas piratas da seleção da Tanzânia, se diz não, maconha… e por aí vai).

5- O epíteto “Ilha das Especiarias” não é mera jogada de marketing ou desculpa pra vender quilos de caixinhas de cravos, cominhos e cardamomos como suvenir. Tudo que te servem vem condimentado mesmo (não necessariamente apimentado, mas cheio desss temperos). O chai (chá), que eles tomam o dia todo, tem spices. As comidas, arrozes, peixes, samosas dos restaurantes, têm spices. Até o suco mixed de frutas fácil fácil virá temperado com gengibre – e ninguém avisa. Eu delirava. Mas quem não gosta de nada picante, é bom alertar sempre antes (só não garanto que vá funcionar).

6- Você fica surpreso ao abrir um cardápio após o outro e achar muuitos pratos da cozinha indiana – as trocas comerciais e culturais com o “vizinho” do outro lado do Índico são mais intensas do que se imagina.

7- Não se vê uma só mulher local sozinha pela rua, assim, de bobeira. Quem está na rua é porque está cumprindo alguma tarefa – normalmente, compras.

8- As mesquitas lotam cinco vezes ao dia, após o chamado para a reza vindo dos minaretes – é emocionante ouvir o chamado, mas turista não pode entrar nos templos, não.

9-Você não pode evitar a apreensão ao caminhar pelos becos escuros e labirínticos do souk, o bairro comercial tipicamente árabe que domina o centro de Stone Town, depois que escurece. (Eu confesso que, nas primeiras horas, mesmo de dia eu ficava tensa). Mas aos poucos você entende que, sim, é seguro.

10- As vitrines das melhores lojas estão cheias de jóias e gemas de tanzanita, a pedra preciosa azul escura e rara, só encontrada aos pés do Kilimanjaro. Ela já é chamada de “pedra da geração”: as minas só devem durar essa.

11- Depois de muita barganha, você acaba levando um produto por menos da metade do preço anunciado – é por isso que você voltará pra casa com mais kikoys (a canga local), saquinhos de chá e favas de baunilha do que manda o bom senso.

12- Mesmo que já chegue ali sabendo da história local, você demora um pouco a juntar o quebra cabeça da mistura cultural alucinante que é Zanzibar: África Negra, mundo árabe, cozinha hindu, mão inglesa etc. É demais! (Por isso, não deixe de reservar um par de dias para a capital, Stone Town. Nas praias, essa miscigenação doida é pouco percebida.)

 

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quarta-feira, outubro 28, 2009

Beyt Al Chai cama
{Nossa cama no hotel Beyt Al Chai, em Stone Town}

No post passado eu disse que era muito natural que um membro da tribo Massai, do Quênia, trabalhasse num hotel em Zanzibar, na Tanzânia. Sabe por quê?

Veja só as recomendações que um turista encontra por todo lado quando chega em Stone Town – aqui, retiradas do mapinha oficial de Zanzibar que você compra nas lojas de suvenir:

– Não ande por Stone Town nem outras cidades e vilas em Zanzibar vestindo biquínis e minissaias. Pede-se a todos os turistas o uso de roupas recatadas, em respeito à fé islâmica da maioria dos habitantes da ilha. Mulheres devem cobrir os ombros e vestir calças ou saias que alcancem abaixo do joelho. Homens não devem andar sem camisa.

– Não faça topless nas praias de Zanzibar. Biquínis e roupas de banho são aceitáveis (sic) em praias turísticas, mas não se há pescadores ou catadores de algas por perto.

– Lembre-se que durante o mês de Ramadã, enquanto os muçulmanos estão jejuando, é considerado o auge da falta de educação comer ou beber na rua ou em locais públicos.

– Lembre-se de pedir permissão antes de tirar fotografias de pessoas e casas particulares.

– Não se esqueça de que Zanzibar é uma sociedade islâmica. Apesar de o álcool estar livremente disponível nas ilhas, o “comportamento embriagado” não é visto com tolerância e é considerado ofensivo pela maioria das pessoas.

Old Fort
{O Omani Fort, de 1701, em Stone Town: símbolo da expulsão dos portugueses pelas tropas de Oman}

E o que isso tem a ver com os massais?

Bom, depois de ler essas e outras recomendações, dia após dia, em tantos lugares, e ver vários turistas as ignorando, especialmente quanto às restrições a regatinhas e minissaias, é inevitável: uma hora você se pega pensando: “catzo, não agüento mais tomar pito desses folhetinhos. Parece que a gente é um estorvo aqui na ilha”. 

E de certa forma, é mesmo. Trazemos o dinheiro do turismo, que o povo, bastante pobre, precisa. Mas também incomodamos com nossos costumes “infiéis”, nosso espalhafato, nossos óculos escuros de astro de TV. (Eu aguentei firme o calor e mantive ombros e coxas cobertas o tempo todo). E, pior, com nossas câmeras de lentes compridas batendo flashes na cara deles.

House of Wonders
{The House of Wonders, de 1883: parte do conjunto arquitetônico de Stone Town, Patrimônio da Humanidade}

E olha que curioso: depois das nossas estadias nas praias de Matemwe e Mnemba, percebemos que não tivemos contato com praticamente nenhum funcionário de hotel muçulmano.

Ora, se 99% dessa ilha é da turma de Alá, como é que todos os camereiros, garçons, cozinheiros dos hotéis são católicos? E, mais intrigante, eles também eram moradores das comunidades daquelas praias.

A verdade nós descobrimos conversando com nosso motorista do traslado de volta do Mnemba a Stone Town: a grande maioria dos locais, muçulmanos, da ilha se recusa a trabalhar com os turistas, nos hotéis.

Basicamente porque nós estamos sempre seminus, bebemos álcool e comemos carne de porco regularmente (nham!).

Beyt al Chai estar
{Sala de estar do Beyt Al Chai, onde mantinhamos nosso comportamento “sóbrio” tomando – adivinhe? – chai}

Como resolver a questão, se a ilha vive basicamente do turismo? Trazendo funcionários da mainland, como eles chamam a porção continental da Tanzânia. Ou, por que não, do Quênia? Daí os massais serem relativamente comuns como funcionários na hotelaria de Stone Town. Como esse movimento migratório tem sido sistemático nos últimos anos, já existe uma boa quantidade de tanzanianos católicos integrados nas comunidades de praia.

E sabe o quê? Essa foi a primeira viagem que eu fiz em que minha condição de turista era completamente indisfarçável. Era Ramadã, a homarada tava toda na rua, meio na preguiça, em jejum, e simplesmente todos ficavam nos filmando, pra onde quer que fôssemos.

Eu sentia tanto o climão no ar que não fui capaz nem de fazer menção a fotografar qualquer pessoa na rua. Sentia como se fazer isso fosse um ato obsceno. A não ser que eu me tornasse minimamente íntima de alguma pessoa e pudesse pedir respeitosamente autorização para a foto.

Stone Town1
{Já cliques das lindas portas da cidade, muito típicas, dava pra fazer sem galho}.

Como eu gostaria de ter fotografado alguma das tantas mulheres de burca que vi pelas ruas, naquele calor de 38 graus. Como todas andavam olhando pro chão, a aproximação ficava difícil, e era impensável eu levantar a câmera de supetão e clicar.

É como se um gesto desses fosse reforçar a ideia de que nós, turistas, em nosso estado natural, não temos respeito pela cultura local. E por isso precisamos de tantos códigos de conduta escritos em todos os lugares.

Levantar minha câmera para uma daquelas mulheres era como um símbolo do turismo insustentável. Preferi registrar aqueles olhos pretos escondidos sob o véu preto só na minha memória.

Stone Town porto
{O porto e seus velhos canhões: hoje não chegam mais inimigos por essas águas, só turistas vindos com a balsa de Dar-es-Salam}

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segunda-feira, outubro 26, 2009

masai porta

Então nós chegamos a Stone Town, a exótica capital de Zanzibar, 99% islâmica e Patrimônio da Humanidade pela Unesco.

Era Ramadã, era fim de tarde e nós estávamos ansiosos pelos primeiros sinais de islamismo que nos aparecessem pela frente — em uma semana de praias paradisíacas na ilha, eles se fizeram discretíssimos.

Chegamos ao hotel e nossos olhos foram capturados pelas roupas berrantes dos bellboys. “Olha que vermelho, que colorido, e olha esses chinelos com um espeto ereto saindo da tira entre o dedão e o segundo dedo e, calma, mas isso não tem nada de muçulmano, eles mais parecem… massais?”

masai 1

Pois sim. Não havia um, nem dois, mas três funcionários massais no hotel. Genuínos, membros das tribos nômades do Quênia, lá da região do Parque Nacional Maasai-Mara. Eu procurando os 99% muçulmanos e topo logo com os zero ponto alguma coisa porcento índios. Inusitado.

Mas o que eles estavam fazendo de carregadores num hotel em Zanzibar?

Amanhã conto mais. Mas logo entendi que fazia muito sentido a presença desses “outsiders” ali.

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quarta-feira, outubro 14, 2009

Mnemba brinde

Conhece aquela política do “eu mereço”? Em viagem, somos particularmente vulneráveis a ela.

Você vê aquela massagem carérrima no spa do hotel que você jamais pagaria se fosse na sua cidade e diz: “ah, eu mereço”. Foi no restaurante e salivou pelo menu degustação que custa o dobro do que você estava disposto a pagar por aquela refeição e acaba cedendo: “ah, eu mereço”.

Pois no meu caso, depois dessa estadia de 2 dias em Mnemba Island, a mais linda e exclusiva ilha da Tanzânia (possivelmente de toda a África Oriental), considero que já gastei a política do “eu mereço” pelos próximos 10 anos.

A ilha é um atol a 20 minutos de barco de Zanzibar, do tamanho de 20 minutos de caminhada (o que se leva para dar a volta inteira nela a pé), com apenas um hotel dentro: 10 bangalôs que eu só poderia descrever como… hum… melhor você ver com os próprios olhos:

Mnemba banda

Mnemba varanda

Mnemba Island Lodge

Ela é circundada por uma barreira de corais que, além de fazer a festa dos mergulhadores, faz a cor do mar ser de um turquesa brilhante que jamais vi igual. A água é um degradê que começa no transparente, passa ao azul-bebê, depois ao turquesa-Mnemba até o azul escuro.

Mnemba mar

Nos arredores da ilha dá pra ver golfinhos e baleias (é, mas nós não vimos). E debaixo do mar é lindo (se bem que não achei mais lindo do que o mergulho em Los Roques).

Mnemba CoraisJPG 

Na volta do mergulho (todos, de snorkel e autônomo, estão incluídos na diária, assim como os equipamentos, o barco e o instrutor), o mais matador é o barqueiro te deixar de volta na sua cabana, isolada, metida no mato e longe do campo visual de qualquer outro hópsede (mas da cama você vê o mar).

Mnemba vista mar

Daí a rotina é essa: da cama pra varanda, depois pro mergulho, depois pra cabana de praia logo em frente ao seu bangalô:

Mnemba praiaJPG

De vez em quando você topa com um dos antílopes anões que povoam a ilha (apelidamos ele de mini-bambis):

Mnemba minibambi

E quando dá na telha você vai comer.

Todas as refeições são incluídas na diária, tem lagosta toda noite, o frigobar é liberado (e você escolhe tudo o que quer colocar ali, de tônica a uísque e champanhe) e tanto café quanto almoço ou jantar têm hora pra começar mas não pra acabar. 

Mnemba tomates

Mnemba almoço

Mnemba sobremesaJPG

O jantar é servido sempre na praia, com as mesas na areia e rodeadas por tochas. Sua única preocupação é checar o cardápio na lousinha do restaurante toda manhã e dizer se você quer comer aquilo, quer trocar alguma coisa, ou até mesmo, se quer trocar todas as coisas. E avisar se vai querer o jantar numa mesa exclusiva em frente à sua cabana.

Mnemba cardápio

(Pra você ver como são as coisas… Presenciei um casal de canadenses pedindo ao garçom para trocar todo o menu do jantar – esse aí da foto acima – por cheeseburger e fritas! Não, não estou mentindo).

O que mais? Bem, agora vou ter que falar o preço, obsceno: 2500 dólares o casal. Calma, minha gente, eu não fiquei milionária. Digamos que foi um exagero na política do “eu mereço”, aliado à política do “eu TENHO que conhecer isso” (a carreira de jornalista de turismo é uma desculpa perfeita) e, claro, graças também a um milagre chamado “cotas da lua de mel” (queridos amigos, eu amo vocês!).

Vale esclarecer também a grande parcela de culpa que o Riq tem nisso, exaltando sua experiência no Mnemba anos atrás (com direito a cunversê com Emma Thompson).

Pois bem, a pergunta que eu sei que você quer me fazer nesse momento:

Vale a pena tomar essa facada pra ficar no Mnemba Island?

Mnemba chegada

Ao que eu responderia: 

De fato, não há comida, bebida, serviço ou mergulho sensacional que possa valer, somados, 2500 dólares. Se você não consegue abstrair essa conta, esqueça. A grande questão do Mnemba é a experiência da exclusividade. Claro, se você é a Emma Thompson, isso é essencial.

E se você não é, pense assim: onde mais você poderia se sentir numa ilha deserta, dentro da cabana mais charmosa do planeta, toda feita de palha, toda aberta, ouvindo o som do mato, e com todo o conforto e a mordomia e a autenticidade que puder imaginar? Onde mais cair da cama para um mar de sonho desses, sem encontrar nenhuma pessoa no meio do caminho?

Mnemba Island Lodge
{Essa foto, assim como a do banheiro, são divugação; as demais são minhas}

Eu não me arrependo. E, inclusive, já estou pronta para a próxima mochilada – ou seja, uma experiência dessas não vai te transformar necessariamente numa perua irremediável. 🙂 

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