O que é turismo sustentável?

pássaro blog

Faz de conta que:

1- Você mora num bairro tranqüilo, quase rural, no subúrbio de uma cidade grande. Acha um luxo poder estar tão perto da civilização e ao mesmo tempo ter um cenário bucólico no quintal.  Leva seus filhos pra fazer piquenique na beira do lago, cai na água com eles quando faz calor. Ouve ao longe o grupo de seresteiros no bar da esquina quando anoitece, uns senhorzinhos que cantam lá toda quinta há 50 anos. E tem o conforto de uma padaria gostosa e uma bela quintada, as duas cheias de produtos orgânicos, a 1 km de casa. Última coisa: a montanha em frente à sua janela é um paredão verde de suspirar.

 2- Um dia descobrem – vamos dar uma pirada – que essa montanha aí esconde fontes de água termal com alto poder curativo.  Ou – bem mais provável – um jornalista de turismo muito antenado saca que o seu bairro é demais e o coloca na lista dos dez refúgios de montanha mais preservados do Brasil.

 3- Bingo. Mais cedo ou mais tarde você vê um mega resort de banhos termais se instalar na beira do lago, bem onde você fazia piquenique, e ainda fechar as margens com cercas e encher de espreguiçadeiras… Do outro lado do lago, no pé da montanha, abriu uma pousada de charme que oferece esportes náuticos e lanchas (todas modernas e próprias, nada alugado do seu Zé, vizinho barqueiro e faz-tudo do bairro). Com esquis aquáticos riscando a água a torto e a direito, nadar no lago com as crianças também virou um problema. E como a pousada moderninha trouxe a novidade, logo vieram os esportistas náuticos da cidade grande pra curtir o point num bate-e-volta. O resort vira sede do evento da Semana do Wakeboard de Caras.

4- Várias pousadinhas e mais alguns restaurantes começam a ocupar o lugar da floresta nas encostas da montanha. O bar dos seresteiros fechou: foi comprado por uma agência que vende passeios nos arredores. Um dia você abre o jornal e vê anúncios de pacotes turísticos para o seu bairro. Logo barracos também pipocam na montanha. São a moradia improvisada de quem veio à região pra trabalhar nos hotéis, restaurantes etc.

 5- Resultado: você e todos os seus vizinhos estão pê da vida porque um dia foram dormir no paraíso e no outro acordaram em frente à parada do ônibus de excursão. O seu Zé tá com medo de falir porque as lanchinhas dele não servem mais pra nada, com tanto capital de fora, reluzente, cruzando o seu laguinho. Os donos da padaria e da quitanda também não viram muita vantagem no crescimento do turismo, já que não conseguem fornecer nada pros novos hotéis e pousadas – eles compram tudo da cidade grande, mesmo que seja mais longe, porque já têm ricos acordos de fornecimento com grandes atacadistas. E todo mundo, inclusive hoteleiros e turistas, só reclama que a montanha tá cada vez mais devastada, o lago cada vez mais poluído, as estradinhas com cada vez mais trânsito.

*****

Agora diga: quantas vezes você já viu isso acontecer? Quantas vezes já contou a um amigo sobre o Reveillón naquela praia nova, com cara de paraíso perdido, sem arrematar com o conselho: “vá logo, antes que acabe”? Ou ouviu alguém falar de um destino da moda frisando que esteve lá dez, vinte anos atrás, quando tudo ainda era genuinamente preservado e autêntico?

Não tem jeito, quando chega a pressão do turismo sobre um lugar, é “um, dois” pra detonar a natureza e descaracterizar a cultura dali.

Ou não. É que alguns malucos aí, nos fim dos anos 80, começo dos 90, começaram a achar que o turismo não precisava ser assim. Que dava pra transformar o “vá, antes que acabe” em “vá para que não acabe”. Como? Viajando de um jeito que  impacte menos e leve mais benefício para o meio-ambiente e a comunidade do lugar. E isso não tem a ver com cumprir um check-list de recomendações e proibições, ou preencher as férias com culpa no lugar de uma mente leve e descansada.

Fazer turismo sustentável é ficar ligado na delicadeza da paisagem e na beleza da cultura de um lugar. Pra isso, fica mais fácil se você se hospedar em guesthouses ou casas/apês de moradores, se comprar da rendeira local, se cair de boca nas comidas das barraquinhas de rua, ou nos frutos do mar bizarros do país – ao invés de ir toda noite no restaurante da moda, de comida fusion, internacional. Assistir os seresteiros no bar da esquina… Comprar da padoca caseira e orgânica…

Enfim, fazer turismo consciente (ou sustentável, verde etc) é também viajar slow e viver experiências mais ricas. Bela trilogia. Os três temas do blog.

Uma resposta to “O que é turismo sustentável?”

  1. Anima Turismo Says:

    Acreditamos que o futuro da qualidade de vida das pessoas e da natureza é o slow travel. Por isso, trabalhamos com passeios turisticos personalizados ee xclusivos na lindas praias do Ceara, algumas ainda não exploradas, além de viagens à Serra. Nossa proposta é levar adiante o turismo sustentavel e slow, com qualidade e respeito. Esse é o caminho..

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