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Parque Nacional Tayrona: um dia e a vontade de passar a noite

segunda-feira, fevereiro 1, 2010


{Arrecifes: que vontade de ficar aqui}

No último dia do ano, 31 de dezembro, também último dia baseado em Taganga, resolvemos ir ao lado leste e mais interessante do Parque Tayrona.

A logística era tranquila. Acertamos tudo no albergue dos nossos amigos, o simpático Divanga. Uma van nos pegaria no hotel e  levaria até a entrada do parque, a uma hora de estrada. De lá encararíamos uma trilha de 45 minutos até Arrecifes,  a praia mais ban-ban-ban. Ida e volta de van custava 30 mil pesos por pessoa (uns 30 reais). E a taxa de preservação do parque, mais 34 mil pesos (para colombianos era bem mais barato, uns 12 mil, acho).

Da portaria em diante, felizes em encontrar a floresta verdinha depois de tanta vegetação árida, íamos a pé. Eu fui esperando uma trilha fechadona no meio do mato. Fui de havaianas mas com o tênis na mochila, para garantir. Ainda tinha lido no meu Lonely Planet que rolava muita cobra no parque, e que se você fosse picado, não era pra deixar ninguém te levar a Santa Marta — muito longe, enquanto a própria administração do parque tinha soro antiofídico, embora pouca gente saiba. Por via das dúvidas, nem comentei o fato com o povo, pra não ter desistência. 😉

Chegando lá, a trilha era um sossego. Quase uma estrada de terra aberta no meio da floresta. Bom, de terra é bondade minha, na verdade era uma estrada de lama e estrume. Como o jeito mais barato de chegar nas praias daquelas bandas era pela trilha (de barco, se a gente viesse de Taganga, daria uns 100 reais pra cada um), jumentos e cavalos eram usados como carregadores de tudo – de água para o boteco da praia às malas da galera que ia se hospedar dentro do parque. E também do povo que tinha preguiça de fazer a trilha.


{Taí o motivo de tanto cocô no meio da lama… argh!}

O trajeto era leve, mas o cheiro de estrume era um horror. Para ajudar a aguentar firme, plaquinhas no meio do caminho atestavam sua evolução:

A chegada era triunfal. Um imenso gramado com coqueiros altíssimos, um restaurante bonitinho, e uma praia extensa, mas de paisagem nada monótona: um mar bravíssimo, areia fofa, uns pedrões no meio dela, ilhotas no mar, uma lagoa, coqueirais. Demais.

O chato era não poder nadar. O mar era tão bravo – o nosso motorista da van já tinha advertido – que 200 pessoas já tinha se afogado lá. Quando tentamos entrar só até a coxa, para dar uma refrescada do calor de matar, um guarda-parque veio apitando e nos botando pra fora d’água. Bem que a plaquinha tinha avisado:

  

Não só a paisagem era linda, como o clima da praia era delicioso. Pouca gente, uns burricos passando com as bagagens, um camping simpático, dava muita vontade de ficar ali. Foi inevitável a ponta de arrependimento por ter escolhido Taganga como base. Mesmo que ali fosse isoladaço, com certeza sem balada de Reveillon e sem opção de restaurante de noite, o lugar era um paraíso.

O impedimento de mergulhar nem era grave. Caminhando para o lado esquerdo, logo se chegava a uma  praiota, chamada Piscinas, onde dava pra cair na água. É claro que meu marido já foi achando que dava pra mergulhar logo na lagoa de Arrecifes, que parecia tão calminha.

E já ia caminhando para a lagoa, ao lado dos burricos. Só deu meia volta por causa da minha insistência. Não era muito estranho não ter nem uma criatura humana ali dentro, mesmo com aquele calorão? Devia ter algum motivo muito bom pra isso, não? 

Tinha mesmo. Caymanes. (Jacarés. Rá).

Dali fomos andando pra Piscinas. Azar, naquele dia ela também estava proibida para banho. O vento e o mar estavam impossíveis.

Comemos uma arepa sensacional numa barraquinha entre uma praia e outra.

Mais 30 minutos de caminhada por uma trilhinha quase à beira mar e chegamos em Cabo San Juan del Guia, a base mais movimentada para quem vai ao lado leste de Tayrona. Há alguns restaurantes simples, cabanas e campings.

A praia era linda e boa pra mergulhar. Um pouco mais cheia que as outras, mas ótima.

Ótima pra perder a hora também. Na empolgação, acabamos calculando mal o tempo da trilha de volta. Tínhamos que estar na entrada do parque para pegar a van às 15h. Cedo, porque ainda queríamos dar uma dormida aquele dia pra estar novos pra virada. Não nos demos conta de que a volta iria demorar quase 1h30, saindo de Cabo. Ainda paramos no meio do caminho pra fotografar os macaquinhos tití.


{A foto da placa saiu melhor que a do bicho}

Conclusão: fizemos a trilha de volta quase correndo, desviando dos burricos e cavalos que atravancavam o caminho, e mesmo assim chegamos uns 40 minutos atrasados na van. Ainda bem que aqui não era a Suíça. O motorista não só não ficou puto com a gente, como ainda pediu aos guardas da portaria que avisassem de seu atraso para a  pobre menina que ele tinha que buscar ali dali a uma hora. (Duvido que tenham avisado, convenhamos).

Viva a Colômbia, viva o último dia do ano. 2010 estava chegando, e a gente com o pé direito a postos.

***

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Playa Brava: o paraíso a um barco e uma trilha de distância

quinta-feira, janeiro 21, 2010


{A praia dos sonhos existe. Mas dá um trabalhinho chegar lá}

Descobertas as limitações de Taganga, ao fim do primeiro dia de viagem fomos a uma das operadoras de mergulho da vila, na rua da praia, para tentar entender melhor o que era o vizinho Parque Nacional Tayrona.

Olhando um imenso mapa das praias do parque na parede da loja, fomos indagando o atendente. Queríamos:
a) uma praia sem muvuca
b) bonita
c) de areia
d) a pouco tempo de barco de Taganga

Na conversa, fomos percebendo que o lado oeste (onde estávamos) e o lado leste do parque eram diferentes. O que todo mundo chamava de Tayrona era o lado leste, cercado de floresta e com praias de areia. Nós estávamos no setor árido, com vegetação de caatinga à beira mar, e com uma maioria de praias de areia dura com pedras.


{Mapa de Tayrona pintado no vidro de uma van de passeios}

A praia mais bonita do nosso lado seria Bahía Concha, com areia, a meia hora de barco de Taganga, mas como tinha estrada até lá, estaria lotada.  

Mas não tem outra praia linda perto?, perguntamos. Tem sim, Playa Brava.  Mais perto que Concha, só que é preciso pegar 20 minutos de barco até a enseada de Granate, depois mais 20 minutos de trilha até Brava. É totalmente deserta.  Deserta?

Mais que depressa marcamos o barco para o dia seguinte.

Granate tinha três enseadas: era preciso desembarcar na última e fazer a trilha. Chegando lá, havia só uma casinha de pescadores, uns cachorros, alguns locais. E um morro bem alto: a gente teria que subir tudo, descer tudo do outro lado pra chegar à Brava.

Três garotos vieram se oferecer para nos guiar pela trilha. No começo eu fiquei meio injuriada: pra quê pagar os meninos se disseram que dava pra fazer a trilha sozinho? Fora que dois estavam com paus e um com um facão gigante na mão. E a gente em dois casais.


{Eis o morro que tínhamos que subir e descer pra chegar à Brava}

Bom, seguimos os três, meio alertas. E agora digo: santos moleques! A trilha de subida do morro não era muito óbvia, e era bem íngreme – não ia ser nada legal se perder e ficar subindo e descendo pra se achar. Chegando no topo…

Que vista! E um vendaval insano, de descolar as bochechas do rosto (e de te fazer agradecer às aulas de ioga pelo equilíbrio conquistado).

A trilha pra descer era muito pior. Mais íngreme, o que fazia a gente se abaixar pra caminhar, às vezes. E chegando lá em baixo, uma restinga cheia de cactos e árvores de espinhos que se entrelaçavam – agora sim eu entendia o facão do garoto. A trilha era meio casca mas no total durava só 20 minutos mesmo.

Chegando à areia, tchan tchan tchan tchan… Ninguém, meus amigos. Nem uma alma viva. Nem uma construção. Uma areia fofa no começo, batida perto do mar, e um mar bravo. Como é bonito mar com ondas, não?

 

Do lado esquerdo tinha uma micro falésia que salvou a nossa pele: garantia a sombrinha.

Achar a Brava foi um alívio absoluto. Então tinha valido à pena vir até a Colômbia pegar praia. Então não estávamos condenados a um banho de mar com 345 vizinhos, nem à farofa na areia. Uhu!

(Bem, tivemos que nós mesmos providenciar a farofa, comprando um isoporzinho com cerveja, água e bolachas no mercadinho antes de ir. É o único jeito de sobreviver, porque não tem nada na Brava).

Horas mais tarde, umas 15h30, nossos guias vieram de novo pra ajudar na trilha. Porque 16h a lancha estava de volta para nos pegar. (Graças ao fuso, 3 horas a menos que Sampa – eles não têm horário de verão – , a gente acordava cedo na Colômbia, pelas 8 da manhã).

Foi um dia de sucesso. Tanto que voltamos no dia seguinte à Brava, com mais dois casais. E passamos mais um dia com a praia inteira só pra nós.


{A baía de Granate na trilha de volta}

Foi um dia também para reforçar a velha máxima: em alta temporada, praia boa é só a difícil de chegar.

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Taganga, Colômbia: o que essa vila é

quarta-feira, janeiro 20, 2010


{Uma só vila, duas formas de encará-la}

Detonei a pobre da Taganga no post passado. Mas foi só uma questão de respeito à ordem cronológica da viagem. Aquilo lá que escrevi no post passado foi o que dominou meus pensamentos na primeira noite e  no primeiro dia por lá.

Ao longo da viagem, fomos percebendo que era tudo uma questão de enquadramento: Taganga não é um destino. Nosso erro foi pensar assim. Taganga é uma base.

Base para conhecer as praias lindas do Parque Nacional Natural Tayrona, além de base para fazer o trekking de seis dias (ida e volta) até a Ciudad Perdida (a trilha inca e a Machu Picchu dos colombianos), no meio da Sierra Nevada (essa serra que termina na praia e que dá pra ver nas fotos de Taganga que postei).


{Trilha, trilha, sai preguiça}

Eu saí do Brasil pensando em passar dias sem fazer nada, em sair da pousada e cair no mar sem escalas, depois passar o dia estirada na canga. Chegando lá, esse esquema não rolava.

E, quando você percebe que vai ter que ter um pouco mais de trabalho pra achar uma praia do seu número, é preciso tomar uma decisão. Você pode ficar reclamando. Ou pode atropelar a preguiça e ir à luta (hahaha).

Foi o que fizemos, e valeu muito a pena. A viagem foi linda. Achamos praias incríveis.

Mas voltando à mal falada vilinha…. Era uma base. E como tal, Taganga acabou nos agradando bem mais.

Depois de um dia inteiro em praias desertas ou com mar bravíssimo, depois de muito caminhar, descer ladeira, subir ladeira, segurar o chapéu para o vento não levar, entrar em barco, descer de barco, era bem bom voltar pra Taganga e encontrar alguns confortos. Do tipo:

1- Uma cerveja gelada. Bem gelada.

2- As barraquinhas de suco do calçadão.


{Melhor que as casas de suco do Rio}

Era só escolher a fruta, com água ou com leite, com ou sem açúcar, e pirar. O suco de lulo ficou sendo meu preferido disparado. Eu sonhava com aquele suco de lulo, que vem a ser essa fruta aqui:


{Lulo? Muito prazer, Claudia}

3- O restaurantezinho perfeito para a almojanta.

4- Uma pousada bacana de frente para o mar e com caminhas na areia: pra dar aquele bodinho de fim de dia,  largadão, sob a luz dourada no entardecer.


{Para um soninho depois que a farofa se foi}

5- Um píer cheio de barcos que te levam a qualquer lugar que você inventar de ir amanhã cedo. Ou amanhã tarde. (E se você não é de barco, também tem táxi, ônibus, vanzinhas, o que for).


{Só não esqueça de pechinchar com o barqueiro}

6- Uma sequência de estaderos (barracas de praia) na Playa Grande, vizinha, onde o cardápio é uma bandeja com peixes frescos pra você escolher…


{É pargo, é robalo, é pargo vermelho…}

…E onde se come um pargo ao molho de coco levííííssimo


{Dava pra comer até dois}

7- Uma balada decente de Reveillon

8- E, sim, os gringos mochileiros, a maioria europeu, que estavam mesmo em Taganga (embora, no Reveillon, não fossem maioria, como diziam os guias). Pelo toque cosmopolita que eles dão ao lugar.

***

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quinta-feira, janeiro 14, 2010


{A aconchegante baía de Taganga)

Chegamos em Taganga meio ressabiados. Eu nunca tinha ouvido falar desse lugar antes de os amigos que inventaram essa viagem resolverem mudar o plano inicial de passar a virada do ano em Cartagena pra passar em Taganga.

O que me disseram foi: “Cartagena é grande e muito turística, vamos passar o dia 31 numa praia menorzinha, mais alternativa: Taganga”. Do argumento eu gostei. Mas será mesmo que essa vila era legal? Resolvi pesquisar melhor, mesmo sabendo que, em viagens com grupo de amigos, as decisões acabam saindo um pouco do seu controle.

O que consegui apurar naquela correria de final de ano, com uma amiga jornalista que tinha acabado de ir, foi isso: é uma praia descolada, 3 horas ao norte de Cartagena, pertencente ao município de Santa Marta. Fica a meia hora do aeroporto de Santa Marta, é uma vila de pescadores e um centro de mergulho às portas do Parque Nacional Tayrona, cheio de praias desertas.


{A porção da orla ocupada por barquinhos}

Depois, o Lonely Planet dizia que era uma praia em baía pitoresca, cheia de europeus mochileiros, de atmosfera relaxada e reputação notívaga. 

Procuramos hotel  e na prática só achamos um com cara de confiável: o Ballena Azul. Quase todos os outros eram albergues em casarões. Deve ser bem roots mesmo, imaginamos. E nossa imaginação brasileira e otimista imaginou um roots tipo Caraíva – ruas de areia, sombras de amendoeiras, um rústico com charme. Só que com albergues ao invés de pousadas.

Bom, não era bem isso, não. (Evidente que um lugar a meia hora de táxi de um aeroporto não seria como Caraíva. Mas, enfim, a gente é meio Pollyanna quando está precisando de férias desesperadamente).

Chegamos à noite, direto no hotel. O Ballena Azul era tudo o que prometia: uma pousada com certo conforto (ar-condicionado, frigobar, TV a cabo, telefone no quarto).


{Quarto fofo e equipado: só faltou chuveiro quente}

Tinha áreas comuns até charmosas.


{O pátio interno com jacuzzi do hotel}

Era de frente paro o mar, com cadeiras e caminhas na areia e serviço de praia.


{O lobby com a praia na porta}

O problema é que era na esquina da principal rua de acesso à vila com o início do calçadão de Taganga.

Calçadão? Pois é, esse foi o primeiro baque. Talvez Taganga tenha sido como Caraíva há 20 anos. Mas hoje ela tem um projeto urbano esquizofrênico. É uma praiota numa baía fechada, com uma rua principal cortada por umas dez transversais. Só que as ruas foram cimentadas e há um calçadão com mureta, bancos, quiosques, como se aquilo fosse um grande balneário. 

Em resumo: Taganga tem  tamanho para ser um pequeno vilarejo charmoso, como Caraíva, mas projetou uma orla a la Guarujá. Bizarro. 

O primeiro passeio noturno foi broxante.  A avenida da praia era ocupada por alguns restaurantinhos e bares legais, mas outros meio degradados,  e também  agências de turismo e mercadinhos sujinhos – um deles tinha uma balada no segundo andar, toda aberta, com meia dúzia de gatos pingados, e mesmo assim com uma insuportável música eletrônica altíssima que se ouvia em toda a orla. 


{O que esse calçadão está fazendo aqui?}

De manhã, pior: o tal calçadão estava em obras. E todos os quiosques ficavam fechados (pudera, cadê a demanda  pra tanto quiosque?). Vans e táxis chegavam do centro de Santa Marta (tipo uma Guarapari da Colômbia) e deixavam direto na frente do nosso hotel a galera que veio passar o dia na única área habitável da orla de Taganga, onde não havia calçadão (a frente do nosso hotel). O resto da praia era portinho dos barcos que faziam passeios.

Ou seja: passar o dia em Taganga, no way.

Mais do que  imediatamente fomos atrás da trilha de 20 minutos entre Taganga e a Playa Grande (recomendada pelo Lonely Planet). Quem era preguiçoso podia ir de barco, ao preço de 6000 pesos colombianos (uns 6 reais por pessoa).

Mas a Grande era pior ainda. Uma farofa desgraçada, banana boat, barracas de camping na areia e um assédio insuportável de vendedores ambulantes, garçons de restaurantes e donos de cadeiras  pra alugar. Será que era culpa do Reveillon? Será que o problema era a alta temporada?


{Uma dessas barracas-restaurante estava em construção: vai ter dois andares}

No desespero, vimos que no morro do fim da praia tinha outra trilha. Fomos andando e achamos algumas enseadinhas minísculas e lindas, vazias. O problema era que não eram de areia, mas de pedra, ruim de deitar com as cangas fininhas que a gente tinha. E ruim de entrar no mar porque o pé doía com as pedrinhas. A maioira delas ainda era base de pesca – os pescadores abrigados em barracos de palha não deixavam ninguém nadar, para não estragar as armadilhas nem enroscar nas redes.

Meu Deus! O que nós vamos fazer nos outros dias? Foi o pensamento em coro. O jeito seria pegar lancha todo dia para as tais praias desertas do Parque Tayrona – como a Playa Grande, formalmente, já era dentro do Parque, começamos a temer a noção de desertas que nos passaram.


{Enseadinha sem nome: vazia, mas dos pescadores}

O próximo capítulo eu conto amanhã.

(Mas já adianto que a solução do imbroglio  foi reenquadrar o status de Taganga na nossa cabeça: não é destino, é base).  

***

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Colômbia? A la orden

terça-feira, janeiro 12, 2010


{Toscana? Provence? Nada: galeria na muralha de Cartagena}

Chicos, volvi!

E para esquentar os motores do blog, lá vai um foto-post-teaser dos posts de Colômbia que virão.

Tudo começou com um amigo, o Maurício (o que contou esse causo de viagem sensacional vivido num veleiro pelo Caribe), dizendo que ia passar o reveillon na Colômbia com uma galera. E convidando: vamo aê? Opa, bámos, como no?

Primeiro a virada era pra ser em Cartagena. Depois mudaram pra Taganga, uma vila de pescadores 4 horas ao norte, ainda no Mar do Caribe, à beira do Parque Nacional Tayrona. 

Chegamos em Taganga e a prainha em frente ao nosso hotel era assim:


{Taganga às 8h da manhã. Lindinha}

Simpática, né? Pena que isso era às 8h da manhã, e dali a umas 4 horas a areia ia ficar tão muvucada quanto a da vizinha, a Playa Grande, a que o meu Lonely Planet Colombia dizia ser a melhor praia para passar o dia:


{Playa Grande: cruzes, me tira daqui!}

Então, no dia seguinte, fomos atrás da praia deserta dos nossos sonhos. E não é que a 10 minutos de barco e mais 20 minutos de trilha nós chegamos a:

{Playa Brava: quando apontei no topo da trilha, “me” veio um flash da Praia do Leão}

Agoooora, sim. Praia desertaça, só nós 8, em pleno 29 de dezembro. Por via das dúvidas, dia 30 voltamos lá, e passamos o dia como donos da praia de novo.

Como deu pra ver na foto lá da Playa Grande, os morros ao redor das enseadas não são desmatados nem queimados, não: são áridos mesmo. Tem até cacto à beira-mar:

Perdão, cacto, não. MUITOS cactos, na trilha toda.


{A insólita trilha entre os cactos de Granate até a Playa Brava, na ponta sul do Parque Tayrona}

Tudo muito lindo, tudo muito exótico. Mas depois de dois dias começou a me dar um canseira daquela aridez, uma vontade de pegar uma prainha assim, mais bahiana, saca? Um coqueirinho, uma lagoinha…

E então, no dia 31 de dezembro, lá fomos nós procurar no lado norte de Tayrona um recanto para viver o último dia de 2009 com mais, digamos, exuberância.

E não é que achamos, minha gente?


{Úia! Praia Arrecifes, em Tayrona: lagoa, coqueiral e muita areia}

Para nosso delírio, o norte do parque era radicalmente diferente do sul. Todas as enseadas eram de areia, nada de secura nem de cactos, tudo de  coqueiros e até lagoinhas.

Que vontade de ficar mais. O camping ali de Arrecifes despertou meus ímpetos pé-sujos loucamente. 

Mas eis que no dia primeiro do ano de 2010, acordamos com outras ganas (e com uma ressaca dos infernos, evidente).

Cartagena, aí íamos nós.

E a recepção não poderia ter sido melhor.

Eram monumentos históricos:


{Iglesia de San Pedro: em frente fica um restaurante disputadésimo}

Uma muralha charmosíssima, como na foto do topo do post.

Um casario colorido:


{Calle San Juan de Dios, Cartagena}

Roupas coloridas:


{Baila, baila na Plaza de los Coches}

Comidas coloridas:


{Ceviche, nham!}

Olha, eu vou falar. Tudo o que nós quisemos da Colômbia nesse reveillon ela nos deu. É como diziam todos os vendedores de tudo que você possa imaginar pelas ruas: “a la orden”, “a la orden” (às ordens, em português).

Mas eu vou retribuir, não tenha dúvida. Da próxima vez que alguém me convidar para ir pra lá eu vou dizer: Colombia, estoy aqui, a la orden!


{Último dia da viagem: olha a pinta de colombiana da pessoa}

Causos de Viagem: 4 dias de veleiro no Caribe

sexta-feira, julho 24, 2009

(entre Colômbia e Panamá, sob o comando de dois alcoólatras inveterados) 

 Índias KunaVII
{Índias kuna em San Blas}

Inauguro a segunda seção do blog hoje. Causos de Viagem é onde eu e amigos pé-na-estrada vamos contar “a” história de viagem. Aquela que marcou, que foi o grande mico ou a grande epifania, aquela que virou a piada ou que (cada um sabe o seu porquê) mudou as “coisas”.

E inauguro a seção com classe. Com o causo do meu querido grande amigo Maurício Monteiro Filho. Também jornalista, também viajante. E que se meteu numa jornada surreal a bordo de um veleiro. Seu objetivo era ir da Colômbia ao Panamá pelo mar. Mas, como acontece tantas vezes quando estamos pelo mundo, o seu objetivo acabou perdendo completamente a relevância na história.

Esse cara aqui abaixo conseguiu, em 4 dias, viver a “realização máxima” desse blog. Viajou devagar. Verde. E, amigo, o que é que foi essa experiência?

San Blás - Chegada ao Panamá (Posto de Imigração) II
{Posto de Imigraçao em San Blas: rá, se toda imigração fosse assim…}

“Os acontecimentos que se seguem fizeram com que eu e meu irmão valorizemos mais a vida, os amigos e, sobretudo, a terra firme.
 
Antecedentes: já passamos pela Venezuela, onde ficamos uma semana entre Salto Angel, a maior cachoeira do mundo, e Los Roques, um lugar paradisíaco no Caribe venezuelano. (Se não fossem as cidades horríveis, onde se perdem carteiras com todos os cartões de crédito te forçando a usar seu próprio irmão de banco, a Venezuela seria um país legal). Depois, uma noite em Cartagena só para embarcar na jornada maluca que vai colorir esse relato: quatro dias a bordo de um veleiro comandado por dois alcoólatras inveterados.
 
O capitão era um franco-canadense, Marcôs, putanheiro obsessivo, mas um cara legal. Seu imediato era um nova-iorquino insuportável, Turner Armstrong, que parecia um desses cachorrinhos mirrados que acabaram de passar por um teste de cosméticos malfadado e ficaram só com um restolho de pelagem na cabeça. (Ele também tem um barco, que fica ancorado no Panamá. O nome da embarcação: BLOME. Fale isso em voz alta com a devida pronúncia americana e descobrirá a maior fixação do Turner). O resto da galera era firmeza: um casal de alemães, uma australiana, um belga que não ri, eu, meu irmão (o Guto). E um cara mala, escritor inglês, que transformava qualquer mísero episodio em “capítulos do seu livro”.

Capitão Marcos IV
{O capitão do veleiro, Marcos. Você confiaria?} 

Tudo começou quando a gente cruzou com um brasileiro na Venezuela. Nosso objetivo era ir para o Panamá. A gente já queria ir de barco, mas achava que o serviço era meio incerto e que teria que ir de avião. Porque não existe outra forma de cruzar da Colômbia pro Panamá por terra – a não ser a pé, contratando guias locais e com uma altíssima dose de risco de não se chegar ao destino.

(Essa região é chamada de Darién Gap, e por ela até chegou a passar a rodovia Panamericana, aquela que conecta Ushuaia ao Alasca. Mas um misto de descaso público, grandes interesses hoteleiros e de exploração dos recursos naturais locais acabou fazendo com que a floresta reivindicasse de volta a soberania da área, e encobrisse de vez o asfalto. Algo parecido com o que rolou com grande parte da Transamazônica).

O brasileiro, Tiago, tava fazendo uma volta ao mundo de dois anos, a terminar no fim de 2009, na Rota da Seda. Foi ele que falou pra gente ir até um albergue chamado Casa Viena, em Cartagena. Era o mais concorrido da cidade e agendavam todos os barcos pro Panamá.

Baía de CartagenaIII
{“Baía de Cartagena: cidade iradíssima, merece um retorno”}

Chegamos em Cartagena pelas 22h30, fomos pro albergue e eles já ligaram pro capitão Marcôs. Pela meia-noite, a gente já tinha fechado o negócio por US$ 250 por cabeça, pra sair no dia seguinte rumo a Portobelo, Panamá, com parada no arquipélago de San Blas – que não dá pra descrever como é bonito. Comemoramos o acordo tomando umas Águilas em um bar de freqüência duvidosa.

Dia seguinte encontramos o resto da galera que integraria o cruzeiro maluco, e fomos comprar mantimentos num supermercado perto do porto. Em nossa ingenuidade, compramos comida para vários dias: coisas para fazer um café da manhã reforçado, frutas, macarrão… Tive até aquela idéia clássica dos encontros multiculturais: cada um iria fazer um prato típico de seu país.

Então, me muni de leite de coco, robalo, pimentões, coentro pra hastear a bandeira culinária brasileira com uma moqueca. (A comida típica que Simon, o escritor inglês, decidiu fazer era simples: pão preto e muita cebola roxa. Muita. E só pra ele). Pra finalizar, claro, nos abastecemos de cerveja e álcool para meses.

Partindo de Cartagena
{Partindo de Cartagena: de mala, cuia, rango, álcool e ganas, muchas ganas}

Saímos pelas 19h. Não sei se era só o nosso veleiro, ou se são todos assim, mas a lentidão era absurda. Se um nadador amador passasse nadando ao nosso lado, a gente perderia ele de vista em dois minutos. Com isso, chegamos ao mar aberto e as ondas começaram a ficar muito grandes. A galera começou a ficar mal.

Nem eu nem o Guto já tínhamos passado mal em barcos, mas nesse rodamos legal. Ficamos sem comer direito por uns três dias, o que os comandantes acharam ótimo porque comeram às nossas custas e ainda beberam toda a cerveja que eu tinha comprado, à razão de umas duas latas a cada dez minutos.
 

Tour por San Blás
{Vida vagarosa a bordo}

Com tudo girando, era casca descer pra dormir nas camas internas, onde reinava um cheiro de diesel, maresia, cebola – valeu, Simon – e uma população de baratas. Então a gente ficava largado no deck, com o céu mais estrelado que eu já vi, e nenhuma terra firme visível depois de umas 5h de navegação. O sossego acabava sempre que a gente tinha que guiar o barco – porque todo mundo guiava, em turnos de 2h.

Guiar o barco significava manter-se na rota que o capitão dizia, e que a gente acompanhava numa bússola que ficava oscilando em cima do timão. Parece um trabalho de mico adestrado, mas ter que olhar pra bússola de tempos em tempos, iluminada por uma luzinha que era a única visível no Caribe àquela altura da noite, era o caminho sem volta pra tontura, enjôos e outras sequelas marítimas.

Além disso, em alto-mar, as ondas batiam na amurada do veleiro, jogando a gente 30, 45 graus pra longe da rota e nos obrigando a ficar alertas o tempo todo.  A primeira noite foi bem turbulenta por tudo isso.

  San Blás IV
{Enfim, San Blas, Panama. Que Caribe é esse?}

Mas pelas 10h a gente chegou em San Blas, no posto de imigração mais animal que existe, sugestivamente chamado de El Porvenir. Fica numa ilhota de uns 2km quadrados, e lá a gente entrou definitivamente no Panamá.

A região é território autônomo dos índios kuna, uma tribo muito caracterizada ainda, que costura uns panos chamados molas, muito bonitos. Assim que a gente ancorou eles já chegaram em canoas oferecendo o artesanato, tudo cobrado em dólar – a moeda oficial do Panamá é o balboa, mas só se usam dólares pra tudo; os balboas que existem são sobras muito antigas e só moedas pequenas.
  
Então a gente foi pra outra ilha toda tomada por cabanas kuna, onde comemos peixe, caranguejo, lagosta. Nos cobraram US$ 4 dólares por cabeça. De opcional, tinha um self-service psicotrópico (com maconha e pó à vontade). O que certamente se deve ao local estratégico do povoado kuna na rota marítima de tráfico de drogas da América do Sul para a América do Norte.
 
Nessa noite, dormimos ancorados por ali e seguimos viagem no dia seguinte. Mais mar aberto, menos mundo girando.

E a noite caiu de novo, pra começar a bizarrice de vez.

Eu tava guiando o barco, pela meia-noite. Só estávamos eu e o Turner acordados. Eu tava tendo uma sensação inédita de iluminação, falando abertamente de relacionamentos, mazelas humanas e tudo mais, e o cara acompanhando. Então, ele percebeu que a gente tava indo muito, muito rápido – 7 nós, o que é extraordinário pra um veleirinho daquele. E decidiu que iríamos só velejar, ou seja, desligar o motor e ficar só na base das velas. E assim rolou.

Nisso, o capitão acordou, subiu, fez um xixi pela amurada do barco, desceu e já voltou fora de si: QUEM TOCOU NO MEU BARCO? QUEM FOI O FILHO DA PUTA QUE MEXEU NO MOTOR? E começou a procurar a chave, pra religar a parada.

E então meu interlocutor, que só estava eloquente porque estava bêbado que nem um gambá, sacou que tinha esquecido onde tinha deixado a chave. O Marcôs desceu, achou uma chave reserva – ou a gente ainda estaria no Mar do Caribe a essa hora – e voltou pronto pra treta.

Começou a empurrar o Turner pra baixo: “É uma ordem, vai dormir, eu sou o capitão aqui”. E o outro desceu, mas tentou voltar. Então o Marcos começou a chutar a cabeça dele pra mantê-lo lá embaixo, várias vezes, com a sola do pé na carequinha do Turner. E eu perdendo o rumo do barco, de tanto gargalhar.

(A sensação de segurança é indescritível quando você, que nunca navegou na vida, percebe que depende de dois bêbados pra chegar vivo em terra, e que eles estão se dando porrada na sua frente. E eu achando que, naquela conversa, finalmente estava sendo compreendido…)

Chegada ao continente (Isla Grande) II
{E quando você pensa que já chegou ao fundo do poço…}

Tocamos o barco. Todo mundo já de muito saco cheio de mar e paisagens maravilhosas. Casca é que o dia seguinte só trouxe mais desolação. A gente devia começar a rumar pra costa, mas o vento virou e dos 7 nós a gente caiu pra 0.7, quase parando em alto mar.

Logo, já era noite de novo e a gente tinha andado em 20h o que devia ter feito em 4h. Isso exigiu manobras ousadas dos velhos lobos escolados do mar, tipo ficar acordado e reduzir a dose de cerveja e rum em 1%.

E eventualmente procurar o vento, fazendo “tacks” – uma virada de 45º que exige mudar todas as velas de lugar, para buscar o vento. Pra isso, a gente tinha que sair de perto da costa e ir pro alto-mar de novo, até achar o ponto onde ele estivesse soprando mais forte.

E lá estava eu no timão de novo: tinha assumido já fazia umas 4h, mas tava pilhado pra chegar e fui ficando, em busca de mais iluminação. Que veio em forma de uma tormenta bizarra – depois, os alemães disseram que seus pais haviam lido notícias da tormenta nos jornais alemães. A gente tava no meio do nada, não se via dois metros além do barco, eu já tava encharcado, esconjurando Deus, as ondas grossas pra cacete e tinha chegado a hora de fazer outro tack. E lá foram os travados pro deck mexer nas velas e tal.

De repente, veio um puta, PUTA estrondo. Olho pro lado e… A VELA PRINCIPAL ESTÁ RASGANDO EM TODA A EXTENSÃO, NA TEMPESTADE, NA PORRA DO CARIBE. O puto do inglês comemorando mais um capítulo, eu cascando o bico na desgraça e meu irmão acordando com a cara mais revoltada da história.

Então os dois comandantes malucos, mais temerosos que a gente, mandam, pra dar segurança pra galera: “Vamos tentar nos arrastar até onde der”. (Valeu, capitão, pelo incentivo).

Baía da Isla Grande II
{Isla Grande: não era o objetivo. Mas, a essa altura, o objetivo era sair vivo}

Acabamos chegando de manhã numa ilha, Isla Grande, lindíssima, e os caras disseram, como se não fosse o Eldorado: “Dá pra ir de ônibus daqui”. Ônibus? Cara, não demorou cinco minutos pra todo mundo estar pronto pra cair fora.

Experiência de imersão iluminada no Mar do Caribe: check! Sonho infantil de ter um veleiro e navegar pelo mundo: olvidado.

De lá, seguimos pra Panama City, os 6 mais unidos do que nunca depois da loucura. Dois dias depois nos separamos: eu e meu irmão tínhamos uma América Central toda pela frente. Em 1 mês e meio, percorremos Panamá, Costa Rica, Nicarágua, El Salvador, Honduras e Guatemala. Em Guatemala City, ele e eu – Sal e Dean– nos despedimos. Voltei pra São Paulo, e ele seguiu estrada acima até Nova York”.

Maurício Monteiro Filho